O Menino Nemo na Terra dos Sonhos #112: Maldito Desenhista

Little Nemo in Slumberland, criado por Winsor McCay; Tira publicada originalmente no dia 01 de dezembro de 1907 no New York Herald. Clique na imagem para visualizar no issuu.

Esta é uma das minhas tiras favoritas de Little Nemo. Na tira as personagens tomam consciência de serem apenas personagens de uma tira e se revoltam contra o artista que as desenha por deixá-los com fome. A solução dos garotos é arrancar um pedaço de um dos quadros para derrubar as letras do título e comê-las.

No teatro chamam isto de Derrubar a Quarta Parede, aquele momento em que os personagens de uma peça quebram o contrato de ignorância mútua entre eles e a platéia e passam a interagir com a espectadores que ignoravam até então. Claro que aqui Nemo e Flip se dirigem ao desenhista, que nesta tira não é mais que apenas um personagem também, mas o efeito é semelhante.

Este tipo de recurso é bastante corriqueiro hoje em dia, o roteirista Grant Morrisson usou bastante disto em O Homem Animal que, dentre outras ‘anomalias’, apresenta páginas em que os personagens se viram para encarar o leitor do gibi e dizer em seguida “Eu estou te vendo”.

A Turma da Mônica também frequentemente faz brincadeiras onde as personagens se referem aos desenhistas ou roteiristas diretamente reclamando de um ou outro aspecto da historinha, e têm plena consciência de serem personagens dentro de quadrinhos. Em uma história que me lembro agora, e uso para exemplificar, o Cebolinha aparece demonstrando sua capacidade de pronunciar os erres e quando lhe cobram uma explicação ele explana que há um roteirista novo que desconhece sua dislexia. Na Turma da Mônica, inclusive, o próprio autor é uma personagem.

Outra mídia em que este recurso é bastante usado são os desenhos animados, especialmente aqueles que abusam do nonsense como os Looney Tunes:

Agora, para exaltar mais um pouco a genialidade do McCay, imaginem o quão raro devia ser o uso disto em quadrinhos em 1907. Claro que falo aqui sem conhecimento de causa, não li outros quadrinhos da época, mas imagino que seja algo de fato completamente inovador e talvez até mesmo a primeiríssima ocorrência disto em uma HQ.